Algoritmo da Existência
Manifesto do Eu Real
Um texto que fala sobre a nossa existência enquanto indivíduo. Trato da marca pessoal com pitadas de puxões de orelha e conselhos. Em resumo:
A fusão com o cargo nos faz esquecer que somos apenas inquilinos da cadeira que ocupamos.
A autenticidade não é apenas ética, é estratégica. Relações baseadas em interesse morrem; as baseadas em afinidade intelectual sobrevivem.
Quem aposta sua carreira apenas em agradar o chefe comete um erro primário de investimento: quando o ativo principal cai, o derivativo vira pó.
A tecnologia substituirá o funcionário padrão; ela não consegue substituir o humano singular.
Vamos lá?
Manifesto
A luz do escritório projeta uma sombra que não pertence a você. Ela pertence ao título impresso no cartão de visitas (eu uso, e é bem interessante em eventos), à autoridade delegada por um CNPJ (seu holerite / contra-cheque) e ao respeito artificial que a hierarquia impõe. Quando as luzes se apagam e o acesso ao e-mail é revogado, muitos descobrem que são fantasmas habitando uma estrutura que nunca lhes pertenceu.
Aqui cabe o ditado popular “todos somos substituíveis”. Eu sei, dói. Mas é a realidade nua e crua de todo o sistema.
O choque é físico. Ocorre no instante em que o café, antes compartilhado entre risadas, torna-se um território de indiferença. Você cruza o corredor e percebe que a cortesia alheia tinha o prazo de validade exato do seu contrato. Se o seu valor depende da moldura, você não é a obra de arte; é apenas o suporte que a sustenta temporariamente na parede.
Aprenda, todo emprego é uma relação de contrato entre o que a empresa necessita e a sua força de trabalho em providenciar isso. E todo contrato começa e termina.
O Sistema Imunológico da Mediocridade
Minha ruptura particular ocorreu em 2016. Não foi um fracasso, mas um despertar analítico. Foi o ano em que a máscara da cultura institucional caiu. Percebi que alguns sistemas corporativos possuem um “sistema imunológico” agressivo contra quem tenta mudar o status quo. Vi que o desempenho excepcional, quando mal posicionado, é percebido como ameaça por lideranças inseguras.
O que ocorreu lá? Bastou eu perguntar como poderíamos elevar a barra dos processos numa reunião para minha cabeça ser posta a prêmio. Quem detém do poder não deseja ver que possui falhas, que é humano.
A mediocridade, muitas vezes, defende-se atacando a excelência que a expõe. Esse processo acelerou meu amadurecimento e me ensinou a lição fundamental: o CPF deve ser blindado contra as oscilações do CNPJ. Aprendi a separar o indivíduo da armadura do cargo.
A fusão entre o indivíduo e a função é uma miopia que consome carreiras. Para minha mente, que opera sob a lógica do espectro autista, aquela plasticidade moral soava como um erro fatal de processamento. Enxergo o mundo com uma rigidez que exige simetria absoluta entre o verbo e a carne.
Antigamente, via isso como uma desvantagem num mundo de “jogo de cintura”. Hoje, vejo como meu maior ativo de networking. Minha incapacidade de realizar o teatro social funciona como um filtro de alta precisão. Eu atraio apenas conexões que valorizam a verdade nua e crua e consigo identificar a hipocrisia do “tapinha nas costas”. Não faço social selling; faço troca intelectual.
A linha entre o que define o indivíduo e a sua função mercadológica tornou-se perigosamente tênue. Basta abrir qualquer rede social pra ver termos como “ex-Nome da Empresa” ou “ex-Nome do Cargo”. Pouco é falado sobre quem é esse indivíduo quando o joelho treme de medo do futuro ou das consequências das suas ações. As redes sociais acabam virando redes antissociais, anti humanas.
Nesse cenário, o conceito de social selling é uma estratégia que exige do profissional uma “plasticidade moral” para moldar seu discurso, seu comportamento e sua imagem em prol da construção de uma autoridade que facilite a conversão comercial. A pessoa modela a mente e de tempos em tempos se transforma em outra.
O social selling, em sua essência, é uma forma de teatro social. Ele pressupõe o domínio do “jogo de cintura” que seria a habilidade de navegar por ambiguidades. A plasticidade, vista pelo mercado como resiliência ou habilidade social, é, sob essa ótica, uma forma de hipocrisia que corrói a integridade da comunicação.
Por outro lado, ao abdicar da venda social e abraçar a troca intelectual, o indivíduo substitui a persuasão pela clareza. A troca intelectual não busca convencer, mas sim compartilhar estruturas de pensamento, dados e reflexões que possuem valor intrínseco.
Enquanto o social selling é centrípeto (atrai para si), a troca intelectual é centrífuga (expande o conhecimento).
Essa postura cria um ecossistema de conexões de alta fidelidade, afasta os interessados em superficialidades e atrai parceiros que valorizam a densidade e a honestidade intelectual. O networking deixa de ser um jogo de interesses velados para se tornar um encontro de mentes que operam na mesma frequência de transparência.
Capital Social
O cargo é um aluguel de prestígio com cláusula de despejo imediata. Você paga com seu tempo por uma cadeira que nunca sairá do inventário da empresa. Se a sua autoridade emana apenas da mobília, você não exerce influência, mas apenas gerencia uma delegação temporária.
Nesse vácuo, surge o erro tático do “perfil satélite” (o popular puxa-saco): o profissional que orbita exclusivamente o chefe, mimetizando proximidade para simular poder.
O problema dessa postura não é apenas moral, é matemático. Esse profissional é um ativo derivativo, pois seu valor está indexado a uma única ação volátil (o ego do chefe). Quando o hospedeiro cai, o satélite perde a órbita e é expelido pelo sistema. Ele não construiu valor próprio que justificasse sua permanência. Assim, quem aposta todas as fichas na política interna esquece de investir na própria solvência externa.
Também, a simbiose com o crachá atrofia a cognição social. Se as suas conexões se limitam ao departamento, você não possui uma rede. Possui uma espécie de “vizinhança de contingência”. São laços frágeis que evaporam assim que o grupo de WhatsApp da empresa silencia.
Visibilidade real é o reconhecimento do seu capital cognitivo portátil. É o que resta quando a marca da empresa é removida da sua biografia. O verdadeiro teste da sua relevância ocorre no vácuo institucional: quem o procura quando você não tem um crachá para mostrar?
A reputação é a única propriedade intelectual que você carrega para sempre. A rede se constrói na bonança, oferecendo valor genuíno, para que ela exista no deserto.
A Estratégia da Perspectiva Exógena
A Inteligência Artificial é o espelho final dessa falácia do cargo. A IA é o “funcionário corporativo perfeito”: obedece regras, não tem ego, processa dados e executa funções técnicas melhor que qualquer humano. Daí a ideia que todos seremos substituídos pela IA.
Se a sua identidade profissional é baseada no que você executa (a função, o cargo, a planilha), você será substituído. A máquina vence a função.
O que a IA não substituí?
A capacidade de conectar pontos ilógicos, a criatividade caótica e a rede de confiança. A tecnologia não substitui o humano, ela substitui o robô que habitava dentro do humano.
Por isso a importância do Lifelong Learning como ferramenta para manter a mente ativa, disruptiva de um sistema que se automatiza.
Para escapar da bolha, proponho a seguinte prática:
Validação Externa: Busque reconhecimento fora do seu eixo. Se você não consegue explicar seu valor para uma criança ou para alguém distante, você não detém o conhecimento, o cargo detém você.
Você certamente tem um grupo de pessoas conhecidas que sempre apoiam. Mas e entre os desconhecidos? Como essas pessoas tratam seus comentários e contribuições?
O Café do Desinteresse: Cultive o hábito de encontrar pessoas sem pauta, sem slides e sem objetivo de venda. Essa generosidade cimenta as alianças que resistem a crises.
Isso eu aprendi com uma amiga que sempre convida as pessoas para tomar um café. Um encontro verdadeiro, de parar na semana e olhar para o outro e saber o que ele faz e como faz. Uma troca, não um interesse em vender.
Narrativa Autoral: O storytelling da sua carreira deve ser escrito na primeira pessoa do singular. Diferencie o que você fez do que a empresa permitiu que você fizesse.
Aplique isso nas redes e na sua vida. Você é esse ser único no mundo, único com as suas dores e vitórias, e é isso que o destaca na multidão.
A Própria Relevância
O otimismo crítico reside na convicção de que é possível mudar a rota, não importa a hora ou o momento. 2026 começou e você tem ai um mundo de oportunidades a serem (tcharam!) criadas! Não meu amigo, minha amiga, não vou falar sobre 365 oportunidades, 365 escolhas, com fonte comic sans e passarinhos coloridos, mas alertar que esse mundo ai fora segue o mesmo, sem grandes milagres ou mudanças, dependendo unicamente do seu esforço para que essas tais oportunidades surjam no seu caminho. Não existe almoço grátis, tudo é uma troca baseada em algo.
Construa seu nome e sua entrega com a mesma fúria que dedica às metas da empresa, mas mude o beneficiário final. A excelência deve ser sua marca pessoal, não um favor ao empregador. A empresa é o cliente temporário do seu talento “Eu S.A.”.
Próximos Passos: Mapeie agora três pessoas fora da sua rede de conveniência atual (ex-colegas, profissionais de outras áreas). Mande uma mensagem sem pauta: “Olá, estava pensando em um projeto que fizemos e lembrei de você. Como estão as coisas?”. Reative o vínculo pela curiosidade intelectual, não pela necessidade.
O seu “Eu do Futuro”, desprovido de crachá, agradecerá por essa iniciativa hoje.
Feliz 2026! Que este ano você brilhe!
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